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“Um dia ainda vão descobrir que o isolamento urbano mata mais do que o cigarro. Se estivesse na roça, eu estaria melhor. Eu teria mãe, avó, irmãs, quem sabe até umas primas por perto para dar uma força. Era assim que funcionava, e funcionava bem. Mas eu sou uma mulher dentro do recorte de uma janela, de um prédio, de um condomínio, de um bairro, de uma cidade. Eu tenho que fingir que quero dançar com o meu bebê no colo para encontrar com algumas pessoas.

Foi uma amiga minha quem me falou desse negócio. Ela também tinha tido bebê, mas como ela morava do outro lado de São Paulo, ainda não tínhamos nos visto. Passei por uma recepção simpática, enfeitada com flores e mandalas. Depois subi uma escada que levava até o salão. Lá dentro, encontrei umas dez, talvez quinze mulheres, com seus bebês. A maioria estava sentada, conversando ou se aquecendo, outras ensaiavam passos na frente do espelho. A minha amiga era a única que estava acompanhada por uma babá. Sentei do lado dela. Conheci a filha. Tinha o mesmo nome dela: Carolina. Conversamos um pouco sobre as mazelas da maternidade. A minha amiga estava um pouco mais inteira do que eu porque, pelo que entendi, andava com aquela babá para cima e para baixo. Quando a Carolina Jr. começou a choramingar, a babá a levou para o trocador. A minha amiga disse: se tem uma coisa que eu não faço é trocar fralda. Confirmei minha teoria de que, por trás das mulheres mais certinhas, se escondem as mais descacetadas. Porque mesmo à distância eu tinha acompanhado a trajetória da Carolina. Ela ficou cinco anos tentando engravidar. Só falava nisso. E quando o bebê finalmente nasceu, ela resolveu terceirizar a tarefa de mãe para uma babá.

Alguns minutos depois, outra pessoa que eu conhecia apareceu. Essa eu nem sabia que tinha parido. Ela passou por mim com um bebezão amarrado no peito. Cutuquei a perna dela. Também ficou surpresa ao me ver. Fazíamos parte de um grupo que jantava de vez em quando, ela era filósofa, o marido era um figurão da indústria têxtil, dois tipos interessantes, já tinham morado na França, na China, no Vietnã. Ela me mostrou o filho. Chamava-se Walter. Bonito nome, eu disse. É em homenagem ao Benjamin, ela explicou, acredito que se referindo ao filósofo alemão, que eu só sabia quem era porque ela mesma citou uma vez. Ela acabou sentando do meu lado e fiquei feliz em pensar que ia ouvir alguma história interessante, ela sempre tinha alguma história interessante para contar, mas a primeira coisa que disse, depois de se ajeitar no chão com o Walter, foi: teu filho faz uma média de quantos cocôs por dia? E daí para frente só ficamos na bosta. Ou, como ela mesma disse, na ausência nefasta da bosta. Porque o tal do Walter, ela nos contou, era constipado a ponto de ter o humor estragado. E não devia ser mentira, porque olhando para ele, dava para ver. Ele tinha aquele olhar melancólico de quem carrega resquícios excessivos do passado. E então ela nos contou que dia sim, dia não, tinha que aliviar o infeliz, enfiando um cotonete cheio de óleo naquele cuzinho inocente, que então se abria e devolvia ao mundo a massa escura da retenção. Acho que olhamos intrigadas para ela, porque, na sequência, ela disse: que que foi, o de vocês não caga escuro? E, a partir daí, Carolina e ela se embrenharam na questão dos tons, enquanto eu olhava para toda aquela mulherada, para todas aquelas bocas se abrindo e se fechando, e tinha certeza de que todas, não importava quem fossem ou o que fizessem da vida, naquele momento só tinham um assunto. Tanto que nenhuma das minhas amigas se tocou de me perguntar, de quem, afinal, era o meu filho.

E então, surgiu a Dandara. Descalça, de cabelo quase raspado. Não com o filho no colo ou amarrado no peito, como todas as outras, mas pendurado nas costas. Como uma colhedora de trigo. Foi até o meio do salão. Apresentou-se. Disse que dava aulas de dança materna há seis anos, desde que teve o primeiro filho. Aquele, nas costas dela, era o terceiro. E tinha uma particularidade: não dormia nunca, só quando estava no colo, com a mãe em movimento. Então, as aulas, que sempre foram um prazer para ela, agora também eram uma salvação. Dito isso, abriu uma bolsa cheia de cortes de tecidos e os ofereceu para quem não tinha. Peguei um, encaixei meu filho dentro e amarrei contra o peito. Olhei para o lado e vi a Carolina Jr., no colo da babá, olhando para a mãe.

Quando a música começou, tirando a Carolina, todas as outras estavam com seus filhos amarrados contra o peito. A Dandara nos mostrou uns passinhos razoavelmente simples, que treinamos até ficarem automáticos. Depois disse para seguirmos em frente, para nos soltarmos pelo salão com nossos bebês, com o único objetivo de curtir a música. Saí dançando no meio das outras mulheres, vendo passar por mim panos coloridos, floridos, listrados, rajados, com todo tipo de cabecinhas saindo de dentro. Uma dessas cabeças estava tentando sapecar o mamilo da mãe. Um pouco mais tarde, passei de novo por eles e vi que o menino estava quase engolindo a teta da coitada, enquanto ela, com seu corpo esturricado, tentava se manter no ritmo da música. Olhando para os dois, percebi que éramos casais. Casais como quaisquer outros: o Abusado e a Exaurida, o Ressecado e a Intelectual, a Carente e a Individualista, o Insone e a Bailarina. Tentei pensar quem era eu e meu filho. A Mulher e seu Homenzinho foi a primeira coisa que me ocorreu.”

Trecho do conto XX + XY, do livro A Teta Racional

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