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     A teta racional, livro de estreia de Giovana Madalosso, já no título, dá uma pequena amostra do que nos espera: inteligência, acuidade e humor. E aponta sem reticências para seu eixo principal: o lugar do feminino no mundo contemporâneo. Um mundo que nos leva a repensar uma série de questões, entre elas, a maternidade, não mais o único lugar possível para a mulher, mas um acontecimento que facilmente entra em conflito com os demais aspectos da sua vida. Temos então a mulher que se vê do dia para a noite divorciada do próprio corpo e percebe que, apesar de seus seios terem se transformado em tetas, seu cérebro não deixou de raciocinar, de pertencer ao mundo lá fora. E ela se pergunta sem cessar, afinal, che vuoi?, tendo como resposta apenas um demônio que, sarcástico, lhe devolve a pergunta.
     Assim, o primeiro conto “XX + XY” aborda a história de uma jovem que engravida de um desconhecido numa festa e, após o nascimento da criança, se vê às voltas com as agruras da vida de mãe solteira e com aquele que se oferece feito uma frágil tábua de salvação: o pai de seu filho. Em “A paraguaia”, duas amigas de faculdade, ambas com pretensões artísticas, se reencontram anos depois e se deparam, surpresas, com o que a vida fez de seus sonhos. Já no conto que dá título ao livro, uma publicitária, mãe de um bebê de meses, volta ao trabalho e se divide entre a ordenha do leite que vaza e as demandas nada empáticas do chefe. Não por acaso, no conto que fecha o volume, Suíte das sobras, a autora retoma o tema da maternidade, desta vez numa difícil relação mãe e filha. A filha, uma coreógrafa que mora há anos em Nova York, decide convidar a mãe recém-separada para acompanhá-la numa viagem pelos EUA.
     E se as personagens de Giovana Madalosso se perguntam a todo instante, che vuoi?, a autora sabe muito bem a que veio. A teta racional surge num momento de importantes transformações sociais e aponta para novos caminhos na literatura feita por mulheres, e por consequência, na literatura como um todo: não mais apenas um olhar da esfera íntima (o lar, os sentimentos), não mais uma tentativa de se mimetizar com o mundo masculino, e sim a busca de uma nova identidade (e de uma nova linguagem) para essa mulher atuante, mas que, não por isso, aceita silenciar uma série de aspectos possíveis do feminino: o corpo, a gravidez, o desejo ou o repúdio da maternidade. 
     Giovana Madalosso apresenta uma escrita permeada de talento, inteligência e coragem. Uma escrita que, não tenho a menor ressalva em dizer, aponta para o surgimento de uma grande autora. Quem ler verá.

Carola Saavedra

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